Barato Sai Caro...

19/07/2010 10:30:00

O lado 'sujo ' dos produtos de limpeza  limpeza
      Os produtos de limpeza vendidos a granel no caminhão, em peruas ou mesmo na porta de casa representam o maior inimigo para as empresas, o governo e os consumidores. Para as empresas, a diferença de até 80% no preço do produto cria uma concorrência desleal desses produtos clandestinos fabricados sem nenhum controle de qualidade ou garantia de segurança. Para o governo, os prejuízos à saúde pública são irreparáveis, além da perda na arrecadação de impostos. Para os consumidores, representam sérios riscos   à saúde e à segurança.
Para conhecer mais esse mercado, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), da Universidade de São Paulo (USP), para a realização de um estudo em 2001. A pesquisa indicou a existência de grande número de fábricas de “fundo de quintal” que formulam produtos de limpeza, especialmente água sanitária e desinfetante, e os  comercializam livremente. 
         O estudo da FIPE e os dados de mercado indicam que das 555 mil toneladas de água sanitária comercializadas anualmente 42,1% são irregulares ou clandestinas e a maioria tem concentração de cloro ativo em volume até 50% inferior ao exigido pela vigilância sanitária: enquanto a concentração ideal é de 2,5% nos produtos regulares, o percentual chega a 1,4% no comércio irregular.    
                                        
       No segmento de desinfetantes, a participação dos informais no volume de vendas – estimado à época em 399 mil toneladas – é de 30,6%. Já a comercialização de amaciantes para roupas está 15,2% na informalidade e 7,7% do segmento de detergente líquido  corresponde   aos   produtos piratas. 
        Com relação à saúde, o mais preocupante é que esses produtos freqüentemente provocam emergências médicas de difícil diagnóstico e tratamento, uma vez que não levam o rótulo que identifica o nome do produto, a empresa fabricante e o químico responsável, o número de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), e o que é pior, não informam sobre a composição do produto nem as providências que devem ser tomadas em caso de intoxicação. Também são embalados incorretamente, muitas vezes em garrafas reaproveitadas e que não oferecem a menor segurança. 
        Outra conclusão do trabalho da FIPE é que a população de baixa renda e escolaridade é a mais atingida pelos danos provocados pela informalidade no setor de produtos de limpeza. E são as crianças as mais atingidas seja por intoxicação provocada pelo manuseio desses produtos ou falta de proteção, quando são utilizados para  fins de desinfecção. 
         Em São Paulo, maior mercado de produtos de limpeza do Brasil, a informalidade também é alta. No segmento de água sanitária, o grau de ilegalidade atinge 37,4%, de acordo com a pesquisa da FIPE, que levou em consideração 971 amostras das quais 204 produzidas por empresas irregulares. Entre os desinfetantes, os produtos clandestinos representam 29,2% do mercado. A pesquisa paulista abrangeu um universo de 2.351 domicílios de todas as classes sociais.
PARTICIPAÇÃO DO MERCADO INFORMAL (%)
Detergente em Pó
Multiuso
Detergente Líquido
Amaciante
Água
Sanitária
Desinfetante
Informalidade Brasil
0,20
3,10
7,70
15,2
42,1
30,6
Informalidade São Paulo
0,20
3,10
4,80
9,20
37,4
29,2
Consumo per capita (BR)
3,97
1,34
2,58
3,21
3,03
2,37
Consumo per capita (SP)
4,39
2,41
4,62
6,01
5,52
4,23
Demanda em toneladas/ano (BR)
673.033
125.116
458.627
552.526
555.595
399.319
Fonte: FIPE-2001
 
  
PERDA DE FATURAMENTO PARA O SETOR INDÚSTRIA
Produto
Consumo estimado (mil R$) (1)
% Informalidade (2)
Valor de perdas em impostos (mil R$)
Água Sanitária
559.286
42,1
235.459
Desinfetante
541.410
30,6
165.702
Amaciante
726.716
15,2
110.460
Detergente Líquido
603.107
7,7
46.439
Total
-
-
558.060
Fontes: (1) Estimativa ABIPLA - (2) Estudo FIPE – 2001
 
         De acordo com estimativa da ABIPLA, a indústria formal de produtos de limpeza deixou de faturar aproximadamente R$ 560 milhões, em 2004, considerando apenas as quatro principais categorias vendidas no mercado informal: água sanitária, desinfetante, detergente líquido e amaciante. Em conseqüência, o governo deixou de arrecadar   R$ 219milhões  em impostos. 
         Diante desse quadro, a ANVISA, em parceria com a ABIPLA e outras entidades do setor, lançou em 2004 a campanha “Diga Não ao Produto de Limpeza Clandestino ou Pirata”. Entre as ações desenvolvidas, merece destaque a cartilha “Orientações para os consumidores sobre o uso de produtos clandestinos”. Com apresentação didática e ilustrada, oferece guia informativo sobre como comprar produtos regulares e como identificar os clandestinos. Já foram distribuídos cerca de 1,3 milhão de exemplares com o lançamento da cartilha em São Paulo, em fevereiro de 2004, no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado, além das capitais Salvador (BA), Recife (PE), Belém (PA) e João Pessoa (PB).
         As ameaças dos produtos clandestinos têm chamado a atenção da imprensa, que informa a população sobre os cuidados que precisam ser observados na compra de produtos de limpeza, destacando o perigo oferecido pelos informais ou clandestinos.
  
PERDAS EM IMPOSTOS ORIGINÁRIOA DA INFORMALIDADE
Produto
Consumo estimado
(mil R$) (1)
% Informalidade (2)
Carga
tributária
(%) (3)
Valor de perdas em
impostos (mil R$)
Água Sanitária
559.286
42,1
37,84
89.097
Desinfetante
541.410
30,6
37,84
62.690
Amaciante
726.716
15,2
43,16
47.675
Detergente Líquido
603.107
7,7
42,27 (*)
19.630
Total
-
-
-
219.092
Fontes: (1) Estimativa ABIPLA - (2) Estudo FIPE – 2001- (3) Estudo IBPT – Diário do Comércio, 19 de julho de 2004(*) Estimativa por similaridade tributária com outros produtos estudados
 
       As ameaças dos produtos clandestinos têm chamado a atenção da imprensa, que informa a população sobre os cuidados que precisam ser observados na compra de produtos de limpeza, destacando o perigo oferecido pelos informais ou clandestinos.
        
O que tem sido feito em combate a pirataria de produtos de limpeza?
                              
         
        Uma metodologia para identificar produtos de limpeza adulterados, que apresenta resultados rápidos e precisos, acaba de ser desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Unicamp. Em apenas cinco minutos, o método aponta não apenas se a amostra foi pirateada, mas que substâncias foram empregadas na falsificação. "A metodologia foi testada e validada com amaciantes, mas ela pode ser adaptada para analisar outros produtos, como desinfetantes e detergentes", adianta o doutorando Sérgio Saraiva, um dos autores na pesquisa. O uso de produtos de limpeza de origem e composição desconhecidas pode trazer graves danos à saúde da população. "Isso sem falar nos prejuízos financeiros que a pirataria causa à indústria, aos consumidores e ao governo", acrescenta o cientista.
 
Método identifica fraude em 5 minutos
        De acordo com o cientista de alimentos Rodrigo Catharino, que também participou da pesquisa, a metodologia é relativamente simples. Ele explica que o método dispensa inclusive o uso de amostra padrão, para efeito de comparação. "A composição química dos produtos de limpeza é amplamente conhecida, uma vez que precisa atender às exigências da legislação. Assim, a presença de substâncias diferentes daquelas previstas na lei pode ser um indício de falsificação". Segundo ele, para proceder à análise química basta retirar uma pequena amostra do produto, diluí-la e injetá-la em um equipamento chamado espectrômetro de massas. Em cinco minutos, o aparelho relaciona, com o auxílio de gráficos, todos os componentes. "O índice de precisão é próximo de 100%", garante o pesquisador.
        Para testar o método, Sérgio Saraiva comprou amaciantes vendidos no comércio informal da Grande São Paulo, principalmente por pequenas lojas e perueiros. Todas as amostras apresentaram algum grau de adulteração. A falsificação mais extravagante, afirma, é o uso de água, perfume e amido para a produção de "amaciantes genéricos".  "Ou seja, o consumidor está pagando por uma coisa, mas está levando outra, que certamente não corresponde às suas necessidades". Outro artifício utilizado pelos falsificadores é trocar a substância responsável pelo amaciamento das roupas por um condicionador de cabelos. "Eles fazem isso porque o segundo produto é mais barato que o primeiro. O problema é que a substância dentro do condicionador de cabelo tem uma ação inferior para as roupas", acrescenta.
        Conforme Rodrigo Catharino, em algumas amostras foram identificados os compostos que de fato deveriam estar presentes nos amaciantes. Entretanto, ainda falta aferir as suas concentrações. "Nossa inferência é de que essas concentrações devem estar abaixo das registradas nas marcas legalizadas vendidas no mercado, pois os preços desses produtos são muito inferiores". Os resultados da pesquisa geraram um artigo científico que será brevemente publicado em uma revista de circulação internacional. O próximo passo dos pesquisadores do IQ, que atuam no Laboratório Thomson de Espectrometria de Massas, é testar a metodologia com outros produtos como detergentes e desinfetantes.
         Prejuízos – A adulteração de produtos de limpeza traz prejuízos à saúde pública, às indústrias do setor, ao governo e ao consumidor. O alerta é da diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Limpeza e Afins (Abipla), Maria Eugênia Proença Saldanha. A maior preocupação da Abipla diz respeito à saúde da população. "Quando uma pessoa compra um produto de origem desconhecida, ela não tem idéia sobre quais substâncias foram utilizadas no seu preparo. Estas tanto podem ser inócuas quanto altamente tóxicas", adverte.
        Um problema relativamente comum são os acidentes envolvendo crianças. Muitas apresentam intoxicação após ingerirem os produtos clandestinos. O mais grave, nesse caso, é que o socorro fica prejudicado, uma vez que o médico não tem como saber que substância causou o problema. "Isso não ocorre com as marcas legalizadas. Na eventualidade de um acidente, basta o profissional de saúde conferir o rótulo, onde está detalhada toda a composição química do produto", compara Maria Eugênia.
        Os prejuízos financeiros causados pela ação dos falsificadores são significativos. De acordo com dados da entidade, o comércio clandestino chega a dominar até 42% do mercado brasileiro, como é o caso da água sanitária. Na linha de desinfetantes, a pirataria chega a 30%, e nos amaciantes, a 16%. A baixa qualidade dos "produtos genéricos" é, conforme a diretora-executiva da Abipla, a principal responsável pela disparidade de preços em relação às marcas devidamente legalizadas. Em alguns casos, a diferença chega a ser superior a 60%. "Nesse caso, o barato sai caro. A maioria dos produtos clandestinos não proporciona os resultados esperados pelo consumidor", assegura.
         Quem também perde é o governo. Como os produtos de limpeza adulterados são freqüentemente produzidos em fábricas de fundo de quintal, esse tipo de atividade não contribui para a arrecadação de impostos. Estima-se que o Brasil deixa de angariar anualmente por causa da pirataria cerca R$ 30 bilhões, montante que poderia ser revertido, por exemplo, em gastos sociais. Dados da Polícia Internacional (Interpol) relevam que a falsificação de mercadorias tem sido o crime mais lucrativo do mundo. A atividade movimenta anualmente US$ 522 bilhões, superando o tráfico de entorpecentes, que faz girar US$ 360 bilhões.
Faça a Sua Parte!!!
 


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